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Confusão na Busca espiritual (VI)

(última parte do texto).

(Continuação do texto "Confusão na Busca Espiritual V).

Uma área onde existe uma considerável confusão entre buscadores espirituais é o conceito de “dualidade” e separação.  Ao buscador foi dito, em termos não incorretos, que tudo é unicidade e que há somente uma fonte; e ao mesmo tempo é dito a ele em entregar-se a Deus. Tal situação deve necessariamente causar uma grande confusão. Essa confusão é ainda mais atrapalhada com a distinção sendo feita entre “dualidade” e “dualismo”.

A causa básica do conflito e infelicidade humanos é “dualismo” como distinto de “dualidade”. É absolutamente necessário compreender claramente a diferença básica entre esses dois termos. De fato tal compreensão clara poderia ela mesma ser a solução para a infelicidade humana, pois ela aliviaria o ser humano do impasse em que se encontra em sua perseguição implacável de pura e desvinculada felicidade.

A verdade é que “dualidade” é polar, interrelacionada e, portanto não realmente separada; ao passo que “dualismo” significa oposição, separação e, portanto, conflito. A manifestação fenomênica é um processo de objetificação que basicamente requer uma aparente dicotomia em um sujeito que percebe e um objeto que é percebido. Esse é o processo conhecido como “dualidade”: todos os fenômenos que são sensorialmente percebidos são a correlação de um sujeito (conhecedor-de-objeto) e o objeto (conhecido-objeto). Esse processo de dualidade torna claro que sem um processo como tal não pode existir nenhum fenômeno, e que nenhum dos dois objetos fenomênicos (nem o objeto-conhecedor e nem o objeto-conhecido) tem por si próprio alguma existência independente: a existência de um depende da existência do outro.

Quando a base da “dualidade” é então claramente percebida, não pode permanecer nenhuma questão nem de qualquer samsara (vida diária fenomênica) ou qualquer “aprisionamento” para qualquer indivíduo conceitual pela simples razão de que o indivíduo em causa não tem uma existência independente, mas é meramente um aparato psicossomático, o instrumento através do qual o processo de percepção e cognição acontece. Nossa infelicidade, nosso conflito, nosso “aprisionamento” surge essencialmente por causa da identificação de O-Que-Nós-Somos (consciência) com o elemento conhecedor-de-objeto na necessária dicotomia da mente-total (consciência) em sujeito-objeto (ambos são somente objetos) no processo de funcionamento da manifestação, como dualidade.

Essa identificação ou entificação como uma entidade separada, independente (como o pseudo-sujeito) é o “dualismo” – a maya – que resulta como a aplicação prática, na vida diária, do princípio original de “dualidade”, que é polar, interrelacionado, e, portanto, não separado. É essa ilusória entificação com sensação de ser-aquele-que-faz que causa todo o conflito, todo o sofrimento, toda a infelicidade que é coletivamente chamada de “aprisionamento”. A instantânea apercepção deste fato do pseudo-sujeito como uma entidade-que-faz independente significa a liberação deste aprisionamento.

A aparente intransponível dificuldade para o buscador espiritual mediano com relação à Auto-realização, na sua vida diária, é o conceito de “separação”. Ele escutou ser dito, várias e várias vezes, de diferentes Mestres, que a Auto-realização não pode acontecer enquanto ele abrigar a noção de que ele está separado dos outros seres humanos. Ele então tomou como correto que a Auto-realização significa a ausência de separação. E porém, ele acha quase impossível de aceitar, mesmo intelectualmente, que ele mesmo como uma entidade-que-faz independente possivelmente não seja separado de todo outro ego-que-faz. E, somando-se à confusão, nos inúmeros ensinamentos, vários métodos são prescritos para o buscador como práticas, muitas disciplinas para serem empreendidas de maneira que “ele” possa convencer ele mesmo que ele não é uma entidade separada. O resultado é que há centenas de buscadores que se encontram atolados em frustração tão profundamente que alguns até mesmo cometeram suicídio. E o pior de tudo isso é que a solução é verdadeiramente simplíssima!

E o que é esse princípio simples que uma entidade separada ao supostamente saber poderia fazê-la aceitar totalmente que não há realmente nenhuma separação entre os bilhões de seres humanos separados? Esse princípio é que cada ser humano é um instrumento separado singularmente projetado, através do qual a mesma Energia Primal (ou Fonte, ou Consciência ou Deus) funciona, e faz surgir tudo aquilo que supostamente é para acontecer através de cada instrumento humano separado, a cada momento, de acordo com a Lei Cósmica. Em outras palavras, a separação como tal é somente com relação à aparência exterior do instrumento humano, mas o elemento operacional é o mesmo: a Fonte-a Energia Primal-Consciência. A Energia Primal funciona através de cada dispositivo humano singularmente programado precisamente como a eletricidade, um aspecto da mesma energia, funciona através de cada dispositivo elétrico, produzindo precisamente o que cada dispositivo elétrico é projetado a produzir. Essa é a maneira como a “separação” existe e não existe ambas em nossa vida diária. Não há realmente nenhum espaço mesmo para qualquer confusão.

É somente a mente que é liberada da preocupação restritiva de “ser-aquele-que-faz” que pode ser receptiva à paz e tranquilidade na vida diária fenomênica. Também, é somente uma mente como tal, não fragmentada pela sensação de ser-aquele-que-faz - tanto para si mesmo como para o outro – que pode ser receptiva para a experiência de Consciência expandida no espaço interno, geralmente conhecida como experiência mística. E é somente uma mente como tal que é livre de qualquer sensação de real separação. E a ausência de separação significa Amor.

Em nossa vida diária, o que acontece é que nossa educação estende-se à sabedoria sobre nossa sociedade de tal forma que nós podemos continuar a ser escravos à mente e não aos Mestres. Nós atendemos aos intermináveis desejos e demandas de uma psique turbulenta que busca segurança na vida através de ganhos e recompensas materiais. Uma mudança pode acontecer somente quando o ser humano já percebe que a riqueza material e o status social por si mesmos não trazem o que o ser humano realmente quer mais profundamente: estar ancorado em paz e harmonia, estar confortável consigo mesmo e confortável com os outros todo o tempo, enquanto enfrenta a vida e aceita tudo que o momento traz.

O conceito básico de Advaita é que os seres humanos não são entidades individualmente separadas com livre arbítrio e sensação de ser-aquele-que-faz pessoal, mas instrumentos mente-corpo programados através dos quais a UMA consciência ou Energia Primal funciona. Portanto, não há realmente nenhuma entidade individual responsável por qualquer ação. Todas as ações – e suas conseqüências ou resultados – acontecem de acordo com a Vontade de Deus ou Lei Cósmica. Portanto, ninguém tem necessidade de culpar a si mesmo ou qualquer outro por qualquer acontecimento. Portanto, não há nenhuma questão de qualquer carga de culpa ou vergonha por nossa ações, nem nenhum ciúme ou inveja ou ódio com relação a qualquer outro. Esse é o significado de busca espiritual.

(do livro “Confusion No More”).

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