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Confusão na Busca espiritual (I)

O que é busca espiritual? Quem está buscando o que? Obviamente, o buscador, em todo tipo de busca, deve ser o “mim”, o ego. Na busca espiritual, o que o ego quer? A resposta óbvia deveria ser: liberdade. O “ego” significa identificação com uma forma e nome específicos como uma entidade separada, que considera a si mesmo no controle de sua própria vida. A liberdade que o ego busca não é, como é geralmente mal interpretado, liberdade de si mesmo. Isso não pode jamais acontecer. Mesmo após o total conhecimento (iluminação, auto-realização, ou qualquer outro), o ego tem que viver o resto de sua vida como aquela entidade separada específica: o sábio responde ao seu nome ao ser chamado, mesmo após o fato da auto-realização.

A ideia do ego buscando liberação de si mesmo (!) tem sido a causa de enorme confusão. Então qual é a liberdade perseguida pelo ego? Ela deve realmente significar liberdade do “outro”! E ainda assim, liberdade do “outro” parece tão confuso como liberdade de si mesmo: o relacionamento com o outro – “mim” e o “outro” – é a base mesmo da vida e do viver. O “outro” pode ser tão próximo como o pai ou a mãe, esposa, ou filho ou filha, ou tão distante como um total estranho. Essa é a charada básica – o enigma – que todo buscador enfrenta em algum momento. E ainda assim, este aspecto da busca não recebeu a atenção que merece. O que é perseguido não é a liberdade do “outro” – tão impossível como a liberdade do próprio “mim” – mas liberdade dos problemas que o relacionamento causa em seu funcionamento. E, deve-se enfatizar que o problema existe mesmo numa relação muito próxima, talvez ainda muito mais intensamente do que num relacionamento com um estranho comparável: quanto mais próximo o relacionamento, mais intensa a dor causada por um relacionamento “com falhas”.

O âmago do problema na busca espiritual, portanto está centrado em torno da causa básica num relacionamento problemático entre o “mim” e o “outro”. Há uma causa básica em quase todos os relacionamentos? Se você analisar os muitos casos de relacionamentos problemáticos, você ficará surpreso em perceber que em tantos casos, a causa resume-se a algo como:

a) Porque ela me disse aquilo?

b) Porque ele não fez isto para mim?

Em outras palavras, a causa básica de quase todos os relacionamentos problemáticos vem a ser algo que alguém fez para ferir o outro ou algo que alguém não fez para ajudar o outro: a sensação de ser-aquele-que-faz pessoal. E o relacionamento pode funcionar suavemente somente se há a total aceitação de que, nas palavras do Buddha, “os eventos acontecem, ações são realizadas, mas não há um-que-faz individual de nenhuma ação.”

A verdade é que, enquanto na realidade o ego não “existe”, para todos os objetivos práticos é o ego quem é o buscador e é o ego quem necessita de ser convencido que a sua “existência” é meramente uma questão de hipnose divina, e que sua noção de livre arbítrio ou volição está baseada na programação no organismo corpo-mente – genes mais condicionamento ambiental – sobre os quais ele não teve nenhum controle.

É somente quando o próprio ego chega à conclusão, por investigação pessoal em sua própria experiência pessoal, que cada uma de suas ações foram baseadas em algum acontecimento anterior sobre o qual ele não teve nenhum controle, que ele está finalmente compelido a abdicar a sua sensação de ser-aquele-que-faz pessoal, de que não há um-que-faz em nenhuma ação, nem ele mesmo e nem o “outro”, que tudo o que acontece em qualquer momento, através de qualquer organismo corpo-mente é trazido pela Energia primordial funcionando através de cada organismo corpo-mente, de acordo com a Vontade de Deus ou a Lei Cósmica.

É somente com esta total aceitação de não-ser-aquele-que-faz pessoal que o ego cessa de acusar qualquer um por qualquer evento – nem mesmo ele próprio e nem mesmo o “outro”; e o relacionamento entre “ele” e o “outro” pode seguir suavemente. O que causa a ruptura em qualquer relacionamento na vida diária é a carga pesada que quase todos os indivíduos carregam, de culpa e vergonha por suas próprias ações e a carga de ódio e malícia perante o outro por sua ação.

Há uma enorme complexidade na nossa vida diária que favorece o surgimento de estresse e tensão quase continuamente. Nossa vida atual perdeu toda a sua simplicidade e nós estamos perplexos com a complexidade e multiplicidade de escolhas em quase tudo o que fazemos. E ainda assim, lá no fundo é experiência de cada um que enquanto nós tentamos moldar nossa vida diária, o que realmente acontece é que aquele evento parece acontecer de uma maneira única, que não é explicado pela nossa razão usual. E, nesse momento bizarro, o pensamento ocorre: Porque eu me incomodo? Porque eu simplesmente  não flutuo seguindo o fluxo do viver ao invés de lutar contra ele?

É claramente uma experiência de cada um que tudo o que se pode fazer é realizar uma escolha, e em seguida, apesar de todo um esforço, o que realmente acontece – ou não acontece – nunca esteve jamais no nosso controle. De fato, quanto mais se pensa seriamente nessas palavras, não se pode deixar de chegar à conclusão de que o limite absoluto do livre arbítrio é tomar uma decisão e tentar ao máximo transformar essa decisão em ação. Se os esforços são bem sucedidos ou não jamais esteve realmente em nosso controle. Está bem claro, portanto, que a tensão e o estresse da vida são o resultado de nossa expectativa de que nossos esforços sejam bem sucedidos. Portanto, porque não, em nosso próprio interesse, dar o melhor de si e deixar por isso mesmo? A expectativa por resultados leva à frustração.

Outro sentimento constante e subjacente – um resultado da moderna vida agitada – é um sentimento de incerteza que constantemente assombra qualquer um que não é naturalmente um relaxado: Será que eu deixei algo por fazer? É minha experiência que realmente ajuda estabelecer o hábito de realizar imediatamente tudo o que possa ser feito naquele instante, ao invés de empurrar adiante para outro momento. Lembro-me de um amigo muito querido dizendo que o seu pai estava sempre em cima dele, quando ele era jovem, berrando um conselho ou outro o tempo todo, e que ele conseguiu esquecer a maioria desses conselhos que foram, claro, com a intenção de deixar a vida do pai mais fácil. Porém, ele nunca esqueceu um conselho específico que ele vem seguindo escrupulosamente tanto quanto ele pode se lembrar: faça agora!

Qual de nós não se lembra das inúmeras vezes que proferimos as palavras de angústia: “se eu somente tivesse feito aquilo quando eu pensei naquilo”, ou, “porque eu não fiz aquilo antes?”. Será que não contribuiria com muita paz e harmonia em nossa vida diária se tais expressões de angústia se tornassem uma exceção e não uma regra?

É uma experiência bem freqüente de se tomar uma decisão de forma responsável, mas uma dúvida ainda persistir: será que eu tomei a decisão correta? Em tal situação, o ponto realmente vital é que não poderia jamais haver uma “decisão correta”. O nosso suposto livre arbítrio entende-se somente frente a tomar a decisão. É a experiência efetiva de cada um que, tendo feito uma decisão e tendo realizado o esforço necessário, o que acontece subsequentemente jamais esteve no nosso controle, pois outras forças nas circunstancias se apresentam, sobre as quais nós não podemos possivelmente ter nenhum controle. E , o que é ainda mais extraordinário, os resultados efetivos afetam não somente aquele-que-faz aparente da ação, mas muitas outras pessoas que não estavam diretamente interessadas. E isso é o fato que produz uma considerável confusão e incerteza na vida, levando a uma sensação contínua de desconforto na vida diária.

A única resposta a essa situação é de tentar e ter uma consciência do momento presente, uma percepção do fato de que o nosso lugar no tecido de tudo que existe no momento nunca esteve em nosso controle. O que esta percepção significa, de fato, é que no momento, cada único momento, “todas as coisas vivas da Terra abrem bem os seus olhos e olham para Mim fixamente”. É a simples percepção de que tudo o que existe no momento é precisamente como supostamente é para ser, de acordo com a Lei Cósmica que está sempre além da concepção do intelecto humano.

(continua no próximo texto "Confusão Na Vida Espiritual II").

(do livro “Confusion No More”).

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