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Confusão na Busca Espiritual (II)

(continuação do texto "Confusão na Busca Espiritual I")

Essa abordagem radicalmente realista e experiencial à Realidade, embora mais prevalente no Leste – especialmente na Índia – não era desconhecida para os grandes místicos e autênticos artistas criativos ao redor do mundo. O ápice de Consciência não pode ser diferente no Leste e no Oeste. O místico irlandês do século IX John Scotus Erigena sabia: “Toda criatura visível e invisível é uma aparência de Deus.” E Meister Eckhart na Europa do século XIII disse: “O olho com o qual eu vejo Deus é o mesmo olho (olhar) com o qual Deus me vê.” O “olho” de Eckhart é o mesmo que no Oriente é chamado de “olho de Buddha”, ou o que os Upanishads falam como: “Realmente, eu sou o Olho, o Olho sem fim”. É o Olho não do “mim”, mas de “Deus nascido na alma do homem”, do verdadeiro Eu. Em outras palavras, não é o olho com o qual um ser humano vê o outro, nem o olho que funciona num relacionamento sujeito-objeto na fenomenalidade relativa.

Em uma das abhangas, o santo Tukaram disse:

Onde Deus reside, vamos nos apressar,

Lá vamos procurar nosso repousante refúgio

Para ele o nosso destino nós devemos entregar/renunciar

Essas linhas, ditas com tanta segurança pelo santo, levantam maravilhosas expectativas no coração e mente do ser humano comum, que vive sua vida diária que é frequentemente repleta de competição e conflito. Ao mesmo tempo, a palavra “entregar” não é uma palavra aceitável na estrutura de condicionamento usual do homem moderno. Há, entretanto, certa confusão em nossa mente. O que é o homem para entregar? Será que há a possibilidade de ele entregar a identificação com o organismo corpo-mente como uma entidade separada? – o ego? Isto é impensável, pois sem esta identificação como uma entidade separada mesmo um sábio não poderia ser capaz de viver o resto do tempo de sua vida, seja qual for o papel que ele supostamente realize na vida. Já que temos que viver em sociedade, a identificação como uma entidade separada deve necessariamente estar lá.

Porque é a identificação que tem que ser entregue? Presumivelmente porque ela significa a sufocante fonte de separação que é a causa da carga que o ser humano sente no seu viver diário. O que há que se considerar cuidadosamente é onde exatamente a carga repousa, e então se torna claro que ela na verdade repousa na sensação de ser-aquele-que-faz pessoal ou na volição pessoal que frequentemente anda com a identificação. A carga é de fato o peso de responsabilidade pelas ações individuais.

A verdadeira pergunta a ser considerada, portanto, é: até que ponto o ser humano tem realmente livre arbítrio ou volição? É a sua ação realmente “sua” ação? É a experiência de todos na vida que o livre arbítrio realmente significa o livre arbítrio de fazer uma escolha, uma decisão. Quantas de nossas decisões foram de fato vertidas em ações? E dentre aquelas que se tornaram ações, quantas tiveram os resultados precisos esperados quando as decisões foram feitas? As respostas para essas perguntas poderiam claramente indicar que o livre arbítrio que o ser humano valoriza tanto – e que é a causa de tanta culpa e vergonha, e ódio e maldade – é de fato realmente somente uma ilusão. Tudo que ele faz é criar o peso que poderia ser instantaneamente retirado se fosse possível para o ego genuinamente entregar a sua volição ou sensação de ser-aquele-que-faz.

Tal entrega significa a total ou absoluta aceitação de que é a vontade de Deus – de acordo com uma Lei Cósmica – que prevalece todo o tempo. Em outras palavras, a entrega genuína do livre arbítrio e ser-aquele-que-faz pessoal significa, de fato, a aceitação clara da declaração do Buddha: “Eventos acontecem, ações são realizadas, mas não há nenhum aquele-que-faz individual de nenhuma ação.”

O que o santo sugeriu é que nós deveríamos abandonar o pensamento conceitual, que é a base de toda a nossa ansiedade – “Nele nós devemos repousar nossas preocupações e nossos medos” – e entregar a nossa volição para Ele pela simples e óbvia razão que a nossa vontade, nossos desejos, seriam necessariamente míopes. O que nós pensamos querer no futuro imediato pode não ser de nosso interesse no longo prazo. Talvez uma excelente ilustração do que o santo quer dizer pode ser encontrado no fato de que, num certo grau de ampliação, as células de um organismo pareceriam estar engajadas numa feroz e implacável batalha pela sobrevivência individual, mas se o organismo fosse observado como um todo através de um grau diferente de ampliação – uma perspectiva diferente – seria claramente visto que o que parecia um conflito num nível mais baixo era na verdade harmonia no nível do organismo todo por inteiro.

A figura esculpida do Shiva Dançante – com os seus quatro braços e seus gestos, tão dinâmico e ainda assim tão extraordinariamente equilibrado – muito maravilhosamente expõe o ritmo e unidade da vida como tal. Ela personifica o fluxo incessante de Energia Primal passando através de padrões infinitivamente diferentes, se fundindo na totalidade da atividade fenomênica do númeno Brahman através das incessantes miríades de mutantes manifestações no mundo dos fenômenos. Ainda mais impressionante, da mesma forma, é a figura esculpida de Mãe Kali em ação – a Energia Primal personificada.

O que o santo realmente queria dizer com as suas palavras, “Nele nós devemos repousar nossas preocupações e nossos medos”, é que tudo-o-que-é em qualquer momento é precisamente o que supostamente deve acontecer de acordo com a Lei Cósmica. Aceitando isso significa repousar os nossos medos e preocupações Nele que é o oceano de felicidade e alegria. Nós não gostamos das pernas curtas do pato, mas elas não podem ser alongadas mesmo com considerável desconforto do pato; o mesmo se aplica às longas e feias patas do grou que nós não gostamos. Similarmente, nós temos que aceitar nossas próprias imperfeições como corretas e adequadas na ampla perspectiva que nós não podemos absolutamente ver como tal.

O aspecto bonito de tal visão ampla é que ela restringe a nossa tendência de constantemente conceitualizar e de compor e julgar o O-QUE-É no momento presente, e, portanto torna-se condutor a uma entrega à Totalidade e o seu funcionamento natural. Esta entrega não é a abjeta entrega da derrota, mas a entrega elevada de nossa volição como nada, mas a usurpação estúpida da pura Subjetividade da Fonte. Quando o relacionamento sujeito-objeto é visto na perspectiva correta, nós experienciamos o presente momento no qual nós vemos a nós mesmos como meras unidades através dos quais acontece o funcionamento universal.

Tal aceitação não vem facilmente por causa do condicionamento ao longo de milhares de anos de que o ser humano é uma entidade separada responsável pelas “suas” ações. A confusão – o verdadeiro problema – para o buscador, mesmo após ter aceitado o fato de não-ser-aquele-que-faz é: como eu vivo a minha vida neste mundo como uma entidade separada que pela sociedade possui responsabilidade pelas suas ações? O problema parece ser bem real até que seja percebido que na ausência da conceitualização, como um resultado da compreensão, todo pensamento e todas as ações imediatamente assumem uma natureza de númeno: sempre que uma ação é necessária, a mente operacional provê a ação e pensamento necessários, sem nenhuma interferência da mente pensante, interessada somente nos resultados e conseqüências no futuro. Em outras palavras, quando a compreensão – que em todos os relacionamentos diários sujeito-objeto não há realmente nenhum sujeito e ambos são objetos – torna-se profundamente enraizado na psique, todas as ações tornam-se espontâneas e naturais sem a mancha de separação entre “mim” e o “outro”.

Assim como o sábio Chinês Huang Po disse: “Se você tivesse que praticar manter a sua mente sem movimento todo o tempo com o objetivo de não criar nenhum pensamento, o resultado seria uma ausência de dualismo, nenhuma dependência nos outros e nenhum apego; se você permitisse todas as coisas tomarem os seus próprios cursos ao longo do dia como se você estivesse muito doente para se incomodar, sem o desejo específico de ser conhecido ou desconhecido para outros, com a sua mente como um bloco de pedra sem emendas e buracos, então a Lei Universal impregnaria profundamente a sua compreensão. E, muito em breve você se encontraria firmemente desapegado e suas reações aos fenômenos rapidamente decrescendo e o seu fluxo incessante de pensamentos chegando a um fim.”

Portanto o fato importante é que a pureza e naturalidade das ações de uma pessoa pode somente evocar uma resposta solidária dos “outros” envolvidos mesmo que estas ações possam não estar de fato em seus interesses imediatos. Resumindo, uma compreensão profunda, trabalhando misteriosamente, miraculosamente, faria a vida inacreditavelmente mais agradável e consideravelmente menos complicada.

(continua no próximo texto "Confusão na Busca Espiritual III").

(do livro “Confusion No More”).

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