Visitantes

Nós temos 17 visitantes online

Confusão na Busca espiritual (IV)

(continuação de "Confusão na Busca Espiritual III).

A pessoa comum não pode deixar de ver na sua vida diária o fato de que umas poucas pessoas, geralmente conhecidas como pessoas sábias e amáveis – sábios – parecem viver as suas vidas desfrutando o mesmo prazer e sofrendo as mesmas dores e sofrimentos como as pessoas comuns; e ainda assim, lá no fundo, parecem estar ancoradas em paz e harmonia. E a pessoa comum está confusa de como isso poderia acontecer. Ele de alguma maneira tem estado sob a impressão de que a iluminação poderia produzir uma enorme mudança para a pessoa em causa; ele não sabe exatamente de que jeito. A palavra que o confundiu é “felicidade última”. É sua a impressão de que a pessoa iluminada não tem mais problemas na vida, que Deus cuida dele e que ele está sempre em “felicidade suprema”. E ainda assim aqui está o sábio sofrendo os mesmos tipos de dores em sua vida diária como ele mesmo sofre. Isto ele acha absolutamente confuso.

É verdade que o sábio parece geralmente relaxado não somente em sua vida diária, mas também notavelmente confortável em seus relacionamentos com outras pessoas, mesmo com aquelas que se supõe serem difíceis de lidar. Além disso, a presença mesmo do homem sábio – não o homem letrado que muito frequentemente é orgulhoso e arrogante – parece exsudar paz e harmonia apesar do fato de que ele parece responder aos eventos externos com uma reação absolutamente normal. E ainda assim, não há nada extraordinário com relação ao sábio. A confusão é: o que é este negócio de “iluminação”?

A pergunta sobre a pessoa iluminada que perturba o buscador espiritual é: como é que a Compreensão Última traduz-se em ação na vida diária? O que faz com que a pessoa comum sinta tal paz e relaxamento na companhia do sábio? A resposta simples é que o sábio está constantemente consciente do “acontecimento” da vida sem esforço; e este “estar consciente” mantem-se funcionando mesmo quando pensamentos, sentimentos, desejos surgem no organismo corpo-mente. Porque eles são meramente testemunhados assim que eles surgem e tomam os seus cursos, não há nenhum envolvimento através de uma reação aos pensamentos, sentimentos e desejos: não há nenhuma sensação de ser-aquele-que-faz pessoal em nenhum acontecimento – nem de si mesmo e nem de outro, nenhuma acusação também.

A compreensão verdadeira absorve a percepção de que, como as nuvens que perambulam pelo céu, pensamentos e sentimentos flutuando pela mente não tem nem nenhum domicílio e nem nenhuma raiz. Uma vez que a Consciência é compreendida como o substrato de tudo que é fenomênico (incluindo os seres sencientes e “seus” pensamentos e ações), o julgamento discriminatório – e o acusar – cessam, pois nenhuma coisa é vista como tendo uma real existência independente. Então as virtudes e vícios são vistos não como opostos como tais, mas como contrapartes polares que não negam um ao outro quando sobrepostos.

Toda ação torna-se espontânea, sendo a operação de virtualidade como um poder latente que exibe a si mesmo na miraculosa realização das plantas, na formação de olhos e ouvidos, na circulação de sangue e reticulação de nervos. Tal força ou poder é gerado sem nenhuma direção consciente – é uma força de funcionamento natural e espontânea, da qual, por exemplo, a eletricidade (ninguém sabe a sua natureza mesmo se nós saibamos como ela funciona!) é somente um aspecto.

Esta força natural miraculosa – cuja base é a ausência de volição pessoal – virtualidade (que não tem nada a ver com siddhis ou poderes espirituais) foi maravilhosamente descrita por Lao-tse como:

A virtude superior não é (voluntariamente) virtuosa, e, portanto é virtude.

A virtude inferior não renuncia em ser virtuosa e, portanto não é virtude.

A virtude superior não necessita de nenhuma força, mas nada permanece não realizado.

A virtude inferior usa força, mas não alcança nada.

A virtualidade está imersa no ordinário e anônimo, e é precisamente por esta razão que a pessoa comum fica confusa e intrigada quando cruza com ela na vida diária. É esta mesma força ou poder que faz brotar o gênio em várias pessoas em várias áreas da vida, que não pode ser explicada em termos mundanos através do método passo-a-passo linear.

Quando a ação é espontânea, sem a menor hesitação ou vacilação, não há nenhum espaço para pensar sobre o futuro. O fato curioso é que as chances de sobrevivência são maiores onde não existe nenhuma ansiedade indevida para sobreviver: a força especial de virtualidade está disponível para aqueles que não se cansam pela ansiedade. E a piada é que esta “ansiedade” inclui o esforço positivo para parar a preocupação. É o espúrio ego-fazedor individual que produz a preocupação. A verdadeira compreensão aceita tudo aquilo que a vida traz e responde a cada experiência sem resistência ou recuo. Portanto, falando da morte de seu Mestre, Lao-Tse, Chuang-Tzu disse: “O Mestre veio porque era tempo. Ele se foi por causa do fluxo natural.”

Em outras palavras, as sensações, sentimentos e pensamentos devem ser deixados para funcionar em seus fluxos naturais, pois qualquer tentativa de controlá-los pode somente resultar em piorar a perturbação. Como o Senhor Krishna disse na Bhagavad Gita:

O homem que é um com o Divino e compreende a Verdade acredita “Eu não posso fazer simplesmente nada”, pois ao ver, respirar, falar, expressar-se, agarrar, abrir e fechar os olhos, ele sustenta que são somente os sentidos que estão em causa com os seus respectivos objetos.

É somente através da verdadeira compreensão – o princípio de não-ser-aquele-que-faz – que alguma mudança pode acontecer em pensamentos, emoções e desejos; qualquer esforço muscular em controlá-los poderia necessariamente ser fútil, pois o sistema nervoso é essencialmente circuito elétrico e não músculo.

A compreensão última profunda e clara – não a compreensão intelectual no nível linear – de O-Que-É leva à verdadeira humildade e a aniquilação da sensação de ser-aquele-que-faz pessoal na entidade ego. Isso significa, na verdade, ação espontânea e natural que reflete o fato de que a inteligência humana – não a mente-intelecto – é muito mais um aspecto inerente do organismo total do universo fenomênico, que mantém a ordem funcional em equilíbrio dinâmico através da operação da Consciência que é o substrato de toda a manifestação fenomênica. O equilíbrio na ordem funcional da manifestação fenomênica é mantido através do mecanismo natural de polaridade entre os opostos ou contrapartes aparentes. Conflito baseado em opostos completamente irreconciliáveis de bem e mal, sujeito e objeto, “mim” e o “outro” seria, portanto, não somente superficial, mas basicamente inaceitáveis para a cultura essencial. O que isso realmente significa é que este show fenomênico inteiro do universo – a lila – não pode ter nenhum real propósito e é fútil buscar um objetivo na vida em competição aberta contra todos os concorrentes.

A maioria dos homens “bem sucedidos” admitiria isso no fundo de seus corações, mas o condicionamento ao longo dos anos é tão poderoso que eles não se atreveriam a admiti-lo abertamente, que ao longo dos anos tinha sido uma experiência fútil buscar um objetivo na vida. Ainda mais difícil de admitir seria a sua experiência de que a realização de tal objetivo não lhes trouxe realmente nenhuma profunda sensação de preenchimento que tanto os seus corações ansiavam. Assim que um objetivo é concebido, a espontaneidade é destruída e a sensação autoconsciente de ser-aquele-que-faz pessoal é assumida. A partir de então, a visão torna-se identificada no objetivo, perdendo então tudo o que é realmente valioso na vida.

A vida “com propósito” deveras perde a beleza da vida diária: usufruir a unicidade do Númeno na dualidade e a multiplicidade da vida fenomênica. É somente quando o ego claramente percebe este fato que entra em ação a total liberdade e então surge a verdadeira visão de holofote que nada perde e abarca tudo. Então, a ação espontânea, não estando em conflito com o curso natural dos eventos, permite ao homem que compreende de estar completamente receptivo à totalidade do universo, e para um verdadeiro sentimento de preenchimento. Relaxado e livre de tensão, ele deixa a vida fluir sem estar autoconsciente nem do esforço e nem do resultado.

Um importante ponto para o buscador compreender claramente, de maneira a evitar alguma confusão, é que a aceitação de O-Que-É em qualquer momento não exclui o mundo fenomênico como uma ilusão porque então ele estaria fazendo uma falsa distinção entre o real e o não real, entre a substância e a sombra, entre o Númeno e o fenômeno. Como o Buddha colocou tão vividamente: samsara (vida) é dukkha (sofrimento), Nirvana (a Fonte) é shanti (paz) – e eles não são dois.

A compreensão básica tem de ser de que qualquer aparência, qualquer sombra, pode ser somente uma reflexão desta única Realidade, que é tudo o que existe. A ilusão não pode ter uma existência independente: o númeno é ao mesmo tempo tanto transcendente como imanente à fenomenalidade, e qualquer distinção é vista como nula. Portanto, com esta compreensão básica, certa quantidade de desapego é cultivada através da percepção de que qualquer distinção entre o atraente e o não atraente pode somente significar um envolvimento egóico, e, portanto sofrimento. Ambos o atraente e o não atraente são contrapartes polares interconectadas: a base mesmo da manifestação fenomênica, e o seu funcionamento que nós chamamos “vida”.

Um aspecto realmente importante desta compreensão básica é que, na vida prática, a usual rivalidade e competição genuinamente tornam-se mais como um jogo – lila – do que um conflito e uma luta que levam à culpa e vergonha por nossas ações, e ao ódio e maldade, ciúme e inveja pelas ações dos outros. Em outras palavras, o resultado imediato da compreensão profunda claramente mostra o contrassenso de uma luta entre o “mim” e o “outro”, ambos sendo meramente instrumentos através dos quais a Energia primal funciona. Qualquer situação na vida – como ela poderia ter sido de forma diferente?! Isso é realmente importante?! As distinções ilusórias meramente constituem a diversidade no curso da vida diária, que de outra forma seria de um tédio insuportável. Há o caso do famoso ator de anos atrás, George Sanders, que cometeu suicídio e deixou um bilhete dizendo que ele estava tirando a sua própria vida porque possuía tudo o que a vida tinha a oferecer – boa saúde, dinheiro, fama – e estava muito entediado em seguir vivendo!

O homem que compreende não se afasta e se esconde do mundo natural de pessoas e eventos: isso mesmo poderia significar um julgamento na vida e no viver. Ele permanece na sociedade, jogando o jogo da vida diária de acordo com as regras normais, mas a sua mente está vazia de ambição fútil, astúcia, desejo e artifício. Ele perambula através da vida testemunhando e participando em todas as experiências sem se envolver através de apegos, nem positivamente aos prazeres e nem negativamente às dores no momento. Portanto, ele é visto pelos “outros” como concedendo virtude e carinho para todo o mundo do “outro”, sem debater com ninguém. Mesmo uma aparente disputa torna-se uma piada quando ele não é perspicaz o bastante em vencer algum argumento.

De forma a evitar que qualquer confusão surja, é necessário tornar claro um ponto: não é que pensamentos, sentimentos, desejos não surjam no organismo corpo-mente do homem que compreende, como uma função biologicamente natural. O surgimento de pensamentos-sentimentos-desejos na mente é tão natural e espontânea como o surgimento de ondas numa extensão de água. Qualquer tentativa de suprimir este acontecimento natural pode somente resultar em fracasso e frustração. O que acontece mesmo após a alvorada da compreensão é que os pensamentos-sentimentos-desejos que surgiram não são perseguidos pelo ego. A compreensão resulta em meramente testemunhar o processo natural do surgimento e do desaparecimento dos desejos sem nenhum envolvimento, e então, quando eles não recebem nenhum sustento do envolvimento do ego, eles podem somente desaparecer no curso do tempo. Em outras palavras, na ausência de sustento, o próprio surgimento dos desejos cresce cada vez menos tanto em sua intensidade como em sua freqüência.

(continua em "Confusão na Busca Espiritual V").

(do livro “Confusion No More”).

Outros Textos...

Banner