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Confusão na Busca espiritual (V)

(Continuação do texto "Confusão na Busca Espiritual IV).

A mente humana está de alguma forma habituada em pensar na mudança em termos de crescimento lateral ou horizontal, mas a nossa experiência parece ser que a mudança é mais na natureza de um ciclo: no ciclo de vida e morte, criação e dissolução, surgimento e queda de sistemas políticos e civilizações, e nos ciclos inevitáveis de felicidade e infelicidade através dos ganhos e perdas nas vidas de entidades individuais. Ainda assim a mente se recusa a aceitar a inevitabilidade de tais ciclos, e esta recusa significa frustração e sofrimento. É esse tipo de frustração e sofrimento – e não a dor ou o prazer no momento – que o Buddha se refere como a dukkha do samsara, o sofrimento na vida.

A aceitação da existência desses ciclos simplesmente significa a aceitação de um fato inevitável da vida e não uma atitude “fatalista”. Tal aceitação simplesmente significa testemunhá-los como uma parte inevitável da vida e do viver, e, portanto não ficando mentalmente envolvido neles. “Isso também passará” é uma excelente atitude na vida que evitaria frustração desnecessária. Mesmo nossa energia física está sujeita a esses ciclos. É a experiência de todos nós que o nível de energia física e do entusiasmo mental algumas vezes está bastante ativo e criativo, enquanto que em outros momentos, por nenhuma razão aparente, ficamos nos sentindo estagnados, e física e mentalmente assaz desanimados. Não aceitar esse fato inevitável – não acompanhar o fluxo da vida – significa frustração desnecessária.

Acompanhar o fluxo da vida não significa estar indiferente ao que o momento apresenta. Não significa “distanciamento”. Esta é uma área específica na qual há considerável confusão para o buscador espiritual. “Acompanhar o fluxo” simplesmente significa usufruir totalmente o prazer do momento pela razão mesmo de que ele não irá perdurar; também significa lidar o melhor possível com a dor do momento, novamente sabendo que também passará. “Acompanhar o fluxo da vida” significa não perseguir o prazer, não tentar indevidamente evitar as dores inevitáveis. O fato surpreendentemente notável é que essa atitude faz os prazeres trazer mais prazer e as dores trazer menos dor. Em outras palavras, “acompanhar o fluxo da vida” traz um estado interno de paz e harmonia, graça e relaxamento. Talvez isso seja o que as palavras “Paz de Deus” significam: a pura e completa alegria de ser.

Não há necessidade de haver nenhuma confusão sobre a não resistência ao momento presente. A não resistência não significa não fazer nada. De fato, é a base mesmo das artes marciais Orientais: ceder para superar. No Taoísmo, há um termo “wu wei” que está repleto de sabedoria. Significa “atividade sem um alguém-que-faz individual” – totalmente diferente da inatividade, que surge da indecisão, medo, inércia. Significa “não-ação” na qual não há nenhum envolvimento do ego. Significa realmente uma ação natural acontecendo no momento presente, não  a ação pela mente pensante e um corpo tenso. Como nas palavras de Jesus: “Olhai os lírios do campo, como eles crescem; eles não trabalham e nem fiam”.

Há casos reportados de prisioneiros aguardando pela execução na fila da morte, quando repentinamente, inexplicavelmente eles perceberam a mais profunda alegria e paz da verdadeira entrega. Há casos reportados de prisioneiros nos campos de extermínio de Hitler, que enquanto permaneciam de pé em fila aguardando serem levados às câmaras de gás, repentinamente riam alto e fortemente, caçoando com os guardas armados que, claro, pensavam que a tensão levou-os à insanidade, no entanto reconheciam profundamente o milagre da entrega ao momento presente. Eles não estavam mais com medo da morte, pois eles tinham morrido ao momento presente; Consciência liberou-se do confinamento de um objeto humano tridimensional.

Há sempre uma curiosidade persistente, especialmente entre os buscadores espirituais, junto com uma considerável confusão, sobre o que realmente acontece na vida diária daquele que acordou para a Realidade. Testemunhando as vidas de vários sábios, por um período muito longo de tempo, uma linha comum vem sendo percebida entre os vários sábios:

1 – O sábio parece viver a sua vida com a compreensão total de que a vida vive por si mesma através de todos os corpos humanos e outros, incluindo o seu próprio.

2 – O sábio parece viver a sua vida com a total convicção de que todas as entidades separadas são separadas somente como ondas, mas na verdade surgem e caem no grande oceano único de Ser. Ele sabe que quando a mente está imóvel, quieta, a Realidade que é experienciada está totalmente desprovida de toda separação. Acompanhando o fluxo da vida, ele é frequentemente visto como estando completamente livre de ansiedade e frustração.

3 – O sábio responde quando o seu nome é chamado, mas sabe que “Aquele” que responde em todos os casos, é a Consciência Primal que é tudo o que existe. Ele está muito feliz em ser esquecido e ignorado pelo mundo. Ele verdadeiramente aprecia o privilégio de ser anônimo.

4 – O sábio vive a sua vida, testemunhando a vida à medida que ela acontece através das várias entidades separadas com a constante consciência de que o passado e o futuro são abstrações e que este momento é a única realidade. Portanto, o sábio vive a sua vida ao máximo, aceitando todas as experiências, de momento a momento, sem a limitação da mente pensante, como “empilhando frutas frescas num cesto sem fundo”.

5 – O sábio é visto ajudando qualquer um de qualquer maneira que ele possa no momento, mas as pessoas parecem praticamente não estar cientes de sua presença. Ele realmente parece estender virtude e carinho para todo o mundo sem competir com ninguém.

6 –  O sábio vive a sua vida permitindo que práticas espirituais, como tais, aconteçam quando elas acontecerem, plenamente conscientes de que elas podem interromper no tempo apropriado: ele jamais esteve fazendo nenhuma prática espiritual.

Resumindo, o sábio vive a sua vida externamente no mundo do bem e mal, beleza e feiura, no entanto sem julgar ninguém. Ele é igualmente gentil aos que são amáveis e aos que são rudes; ele é igualmente sincero àqueles que são sinceros e àqueles que não são sinceros. O sábio parece viver a sua vida sendo uma consciente, mas passiva testemunha  do milagre do desdobramento da existência fenomênica em toda a sua divergente unicidade  e normalidade.

(Continua no texto "Confusão na Busca Espiritual VI).

(do livro “Confusion No More”).

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